quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O VICIO



Tenho 72 anos, minha vida inteira foi entregue ao vício e não sei dizer como ainda estou vivo. Mas sei que perdi meus amigos, me afastei de minha família e acabei com minha saúde. Tudo por causa do vício.
Sim, eu confesso: sou viciado em trabalho.
Tudo começou na infância. Meus próprios pais me apresentaram ao trabalho. Aos cinco anos, eu já o praticava nas ruas, na frente de todos. Mas nunca uma única pessoa se aproximou de mim pra dizer ''larga esse vício, vai pra escola". Ou ''vai brincar, jogar futebol, você é muito novo para estar metido nesse mundo".
Na adolescência a coisa só piorou. Eu vivia dizendo que não queria nada com o trabalho, mas a quem eu estava enganando? A verdade é que perdi o controle. Logo engravidei minha namorada e, como meus pais fizeram comigo, botei meus filhos pra trabalhar. Eu passara de usuário à traficante!
Saíamos todos os dias pro trabalho e nunca a sociedade ou algum governo nos deu uma oportunidade de largar essa doença e ter alguma dignidade. Pelo contrário: nos ficharam, colocando nossos nomes em carteiras de trabalho. E nós seguimos trabalhando e trabalhando, numa trágica escalada. Minha dependência era tamanha que quase todos os dias eu ainda ficava fazendo hora extra.
Hoje, o que eu construí? Nada. Não tenho uma casa pra morar, não tenho onde cair morto, vivo de aposentadoria. E nem assim larguei o miserável do vício. Continuo trabalhando e descontando pro INSS.
Por isso eu peço a você que me lê: não deixe o trabalho tomar conta da sua vida e de seus familiares e filhos. Você começa achando que vai ser o dono do mundo. Mas termina na sarjeta, onde eu estou. Porque o trabalho, meu amigo, o trabalho mata!...
Cesar Cardoso é viciado em escrever.

Texto extraído da REVISTA CAROS AMIGOS, JUNHO 2008, PG 43

3 comentários:

Bacalhau, seu sonho erótico disse...

O final foi demais EUiwheOIUAwe!
Eu concordo! Por isso tenho que virar funcionário público, trabalhar meio experiente e ganhar muito dinheiro pra curtir a vida!
(quem derá, vou virar professor, quem sabe não dou sorte, né...)

gloriamedici disse...

Estamos presenciando, hoje, os reflexos do "toyotismo", ou seja, do "tempo flexível", que nada mais é que a nova "escravidão" social. Sejamos fortes e inteligentes o suficiente para rompermos com essa loucura do tempo de trabalho. Entender o trabalho como uma categoria que nos humaniza é pensá-lo em todas as suas dimensões (social, política, cultural, econômica...), mas pensar o trabalho somente na categoria econômica-financeira é pensá-lo como forma de escravizar o homem.
Lembremos Gonzaguinha "... um homem se humilha/se castram seus sonhos/seu sonho é sua vida/e a vida é trabalho/e sem o seu trabalho/um homem não tem honra/e sem a sua honra/se morre, se mata/não dá prá ser feliz... não dá prá ser feliz..."
Segundo Marx, o homem ao produzir seus meios de vida, produz sua vida material (que também é cultural,social,política...). Nessa percepção o trabalho ganha uma dimensão maior que o próprio sustento.
Segundo Gramsci a alienação pelo trabalho só acontece quando os homens se submentem a ele, não separando o sujeito e as relações que se estabelecem.
Deixo minha contribuição na espectativa de suscitar uma reflexão sobre a questão posta no texto apresentado. Espero que sirva também de um alerta para aqueles que, impedidos de verem à luz das idéias, ou seja com maior clareza as questões que se contrapõem, acabam por contribuir na consolidação dessa nova sociedade que tende a escravizar cada vez mais o ser humano... Um Ser de futuro ???? Qual???
Um abraço... Glória

Maycon Souza disse...

O texto é bem reflexivo.Mas o comentário da SRa Glória foi(fantástico)e esclarecedor.