Adaptado: Revista Filosofia, n°19, pgs. 22 - 26
Se você, leitor dessa revista, tem entre 18 e 30 anos, trabalha, ou pretende trabalhar em uma empresa, seja ela grande, média ou pequena, certamente será enquadrado em uma dessas ‘divisões': Os departamentos de recursos humanos estão se esforçando para identificar quais os tipos de funcionários têm e quais querem ter.
Tudo isso acontece porque o mercado parece ter mudado - e realmente mudou. As pessoas, os novos empregados não são mais os mesmos, e há necessidade de aprender a lidar com esses grupos recentes, que, ao longo dessa reportagem, terão suas características reveladas.
Antes disso, é importante que se conheça os antecessores dessa nova geração. Tudo começa com os chamados baby boomers, homens e mulheres nascidos no período entre o pós 2a Guerra Mundial e o início dos anos 1960. Depois deles, chega a Geração X, com indivíduos de até 1977 e, então, surgem essas pessoas que estão colocando profissionais experientes em relações humanas dentro das empresas para pensar: a chamada Geração Y ou Net.
DIVISÕES
É possível ainda verificar a existência de subdivisões; de diferentes grupos que se formam por terem características semelhantes bem mais acentuadas, como é o caso dos Yuppies (Young Urban Professionals), comuns aos anos 1980, e os Yeppies (Young Experimental Perfection Seekers) dos tempos atuais.
Todos esses nomes diferentes podem fazer você se perguntar por que isso acontece. O professor e Doutor em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo, Thomaz Wood Jr. responde: há a necessidade de caracterização de ‘tipos ideais': "Tipos ideais são idealizações construí das a partir do agrupamento de alguns traços. São similares a arquétipos”: explica ele.
Os baby boomers estão mais acostumados ao trabalho árduo, sem mesmo ter férias; os X são adeptos a construírem uma estabilidade passo a passo, com certa qualidade de vida; e os Y tornaram-se famosos pelo oposto - a impaciência e a necessidade de conquistar tudo nesse exato momento. Querem escalar a montanha do sucesso com rapidez.
Essas características são consideradas básicas e, de certa forma, ilustram os grupos que as têm. Isso facilita "a compreensão das mudanças comportamentais de épocas diferentes. Elas [as nomenclaturas] servem como marcas no tempo, dividindo gerações em espaços", considera o Mestre em Administração de Empresas pela University of Oklahoma, nos Estados Unidos, e também professor da FGY, Alexandre Freire,
Para um dos professores do Programa de Mestrado em Ciências Contábeis na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e ex -Chairman & CEO da Ernest & Young na América do Sul, Julio Sergio Cardozo, toda essa diferenciação é uma "constatação antropológica e como tal deve ser estudada': É exatamente esse estudo que tem sido feito nos mais diversos departamentos de recursos humanos.
"Tipos ideais são idealizações construídas a partir do agrupamento de alguns traços. São similares a arquétipos”.
TRADIÇÕES E RIVALIDADES
Nessas pesquisas, tem-se descoberto que há uma boa dose de rivalidade entre os geralmente bem posicionados baby boomers, os funcionários mais estáveis geração X e os iniciantes Y. E essa "rixa" não deixa de ser algo de extrema naturalidade, já que tudo o que é novo causa certo incômodo no que é tradicional. Até mesmo a Rainha Francesa Maria Antonieta sofreu nas mãos da geração mais velha da corte ao permitir que homens e mulheres comessem juntos, como foi relatado na obra "Maria Antonieta. Biografia", escrita por Antonia Fraser (Ed. Record, 2006).
As características dos Y que mais incomodam seus "precursores" são a falta de comprometimento e iniciativa, e o excesso de confiança e mimo, que entre outras coisas faz com que percam um pouco das noções de hierarquia - dentro de uma empresa, certo atrevimento juvenil pode não soar como "gracinhà: como soaria em casa.
Cardozo indica quais são as notáveis diferenças dessas gerações: "pressa, impaciência e a luta pelo ganho rápido. A geração Y opera na velocidade da Internet banda larga e é muito melhor preparada para viver em um mundo cada vez mais globalizado': Freire pondera que as decisões tomadas por eles são mais rápidas, mas, muitas vezes, resolvidas sem que todas as variáveis tenham sido analisadas ou sem a posse de todas as informações necessárias.
O medo da substituição e do desemprego é o centro do desentendimento entre gerações, afinal, os boomers estão aposentando-se e os Y, chegando com força total para competir com os X por melhores salários e posições. O filme "Em boa companhia' (In good company, 2004), de Paul Weitz, mostra exatamente essa situação com certa graça típica cinemática e sem descartar o drama inerente a esse acontecimento. O roteiro conta a história de um executivo de 51 anos, bem sucedido, vivido por Dennis Quaid, que vê seu cargo sendo tomado por um jovem publicitário de 26 anos (Thopher Grace), que toma atitudes completamente fora dos padrões anteriores com os seus brinquedinhos tecnológicos, os gadgets.
PAPAI, ME LEVA AO SHOPPING?
Mercadologicamente falando - tratando-se de consumo - todas as peculiaridades intrínsecas ao comportamento de um indivíduo Y são intensamente valiosas. Os Yeppies, filhos dos Yuppies, foram criados em bases estritamente consumistas e hoje buscam novas identidades e entregam-se totalmente ao não comprometimento, ao ponto de não haver fidelidade ideológica nem com aquilo que consomem. De seus pais - também consumidores ávidos, mas acostumados com o trabalho, com qualidade e luxo - herdaram essa sede, mas sempre tiveram tudo com facilidade e acabam por não dar valor a nada, alegando que não sentem-se completos ou preenchidos.
Se compram um livro, a leitura é superficial; se gostam de uma banda, é só até que outra apareça com algo mais empolgante; a moda é descartável; os aparelhos tecnológicos tornam-se obsoletos de semestre em semestre. Assim é a vida da maioria desses jovens, que realmente não veem como se apegar firmemente a qualquer coisa, já que o mercado sempre impõe novidades tentadoras, e nunca tiveram alguém que os ensinasse a resistir a elas, a não ceder.
Em entrevista à revista Shopping Centers (2006), Luli Radfahrer, PhD em Comunicação Digital pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA - USP), explica que "a geração atual vive em um ambiente claramente pós-moderno, ou seja, fluido e fragmentado, em que, da moda à sexualidade, do trabalho à música, não há referência sólida para absolutamente nada. Mesmo assim, ela foi educada segundo valores do século passado, em que todas as coisas eram caracterizáveis, rotuláveis e classificáveis':
Apesar de tudo isso, a geração Y não é composta apenas de características negativas. A capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo dá respaldo às diversas funções que podem ser assumidas. A pressa pode ser tomada como agilidade e o recebimento de grande quantidade de informações substitui a total alienação de outras gerações.
Outro ponto positivo está ligado à intimidade dos Y com as novas tecnologias. Don Tapscott, conhecido no mundo da gestão, é autor do livro "Growing up digital- the rise of the Net Generation" (Ed. McGraw-Hill), e em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, argumenta que "os jovens de hoje são a primeira geração a amadurecer na era digital': Devido a isso, esses iniciantes no mercado de trabalho não temem os avanços tecnológicos, como fazem seus pais. Alexandre Freire exemplifica: "os boomers comunicavam-se através de cartas, participavam de torneios presenciais, pesquisaram pela [Enciclopédia] Barsa e escreviam a mão seus resultados em um caderno”.
Dentro das empresas, o setor de comunicação interna mostra bem essas discrepâncias. Enquanto os Y gostam e aprovam soluções virtuais, os X preferem uma simples conference cal! e os baby boomers ainda são mais adeptos às reuniões pessoais, padrão esse indicado pelas, respectivamente, sócia e diretora da KPMG no Brasil na área de Assessoria em Gestão de Recursos Humanos, Patrícia Molino e Lorene Carvalho.
Para que todos demonstrem bons rendimentos, as empresas precisam, em primeiro lugar, identificar, com urgência, como beneficiarem-se dos valores de cada geração. Depois, é necessário que se faça um trabalho de motivação com cada "grupó”; já que seus desejos são bem diferenciados, mas também é importante que se saiba que todos, sem exceções, querem sentir-se "fazendo a diferença”.
Thomaz Wood aponta que, apesar de as tendências associadas ao surgimento dos Y serem interessantes, falta muito para entendê-Ias - "por ora me parecem que foram apenas percebidas”; atesta. Já Cardozo é um pouco mais radical e para ele as políticas utilizadas por profissionais de RH são "pasteurizadas'; eles ainda "desconhecem ou ignoram que existem mais de duas gerações convivendo no mesmo ambiente de trabalho”; contrapõe. Esse é um dos motivos do desperdício de talentos, o outro é a "miopia e arrogância dos executivos”; apunhala o Professor.
Plural e talvez caótico
Todos esses termos e caracterizações têm sempre que passar por análises profundas com a ciência de que nada pode ser generalizado. Por mais semelhantes que as pessoas possam parecer, todas têm qualidades muito particulares. Mesmo que os nomes, os signos aplicados, tenham seus valores, como reafirma Wood, nada pode ser visto como algo definitivo. Vive-se em uma sociedade plural (que, às vezes não deixa de ser caótica). Quando o ser humano está em pauta, não há verdades absolutas.
Aqui "estamos falando de algo fluido, não de lotes de pessoas, como se fossem produzidas em bateladas e jogadas em ambientes homogêneos. Em suma, falar em geração X, Y ou Z é um reducionismo; conclui o professor.
Para as empresas, substituir a mão de obra afirmando, como a canção, que "daqui pra frente tudo vai ser diferente" pode ser um grande erro, já que por mais que se queira mudanças radicais, as tradições anteriores sempre tem a ensinar. As diferenças devem ser reconhecidas e ajustadas. Para lidar com elas basta um pouco mais de tolerância e menos hipocrisia, afinal, se você não tem entre 18 e 30 anos, já os teve; e se os tem, certamente um dia terá 50.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
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